Novembro 16, 2008

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Documento do imaginário social

 

Em Sociologia da fotografia, José de Souza Martins trata a imparcialidade como mentira

 

*Simonetta Persichetti

 

 

No início dos anos 60, um livro escrito pelo sociólogo francês Pierre Borddieu, Um Art Moyen: Essais Sur Les Usages Sociaux de La Photographie (Sem tradução, mas seria mais ou menos Os Usos Sociais da Fotografia),trazia à tona a questão da fotografia como um meio de integração social e uma forma de nos ajudar a compreender papéis dentro de uma sociedade. Ou seja, a maneira como uma sociedade cria por meio de imagens, uma imagem de si própria. A idéia da representação de um cotidiano, mas também de ritos sociais.

Nessa linha, a discussão do imaginário da e na fotografia é o que o sociólogo José de Souza Martins trabalha. E não é de hoje. Seu mais recente livro, Sociologia da Fotografia e da Imagem (reunião de textos já apresentados em congressos, ou publicados parcialmente em outras obras, resultado também das reflexões debatidas em seu Curso de Sociologia Visual, ministrado na USP, de 2000 a 2002), trata e discute justamente esta questão – a falácia da credibilidade ou imparcialidade fotográfica.

A fotografia inventada dentro de uma época positivista – primeiras décadas do séc. 19 – criou e referendou sua posição como espelho do real, mimese de um mundo sem nenhuma interferência de uma olho pensante, a falsa idéia de um registro documental isento: prova de um discurso oral ou escrito. Contra essa crença, vários pensadores da fotografia tentaram se insurgir e, dentro dessas linhas de pensamento, também a sociologia.

Ao tecer textos trazendo a fotografia como protagonista e não apenas como suporte de outras formas de expressão, o autor de mostra que “o icônico é essencialmente expressão de uma necessidade do imaginário, uma linguagem e um discurso visual”.

Rebate a idéia de que a fotografia “congela” momentos, deixando bem claro que é o contrário: cada imagem narra ou cria uma história. Uma conversa árdua, visto que a muito pouco a muito pouco as ciências sociais passaram a se interessar na fotografia como documento por si só, como portadora de uma narrativa própria que é criada dentro de circunstâncias  sociais. O que ele defende é o reconhecimento da imagem como documento do imaginário social e não como registro factual de uma realidade social. E muito menos como ilustração. Para quem quer estudar ou pensar fotografia – algo fundamental na sociedade contemporânea -, os textos de Martins são fundamentais. Não entregam receita de leitura ou compreensão da imagem, mas nos instigam a pensar em seu papel como representante da imaginação coletiva de determinado momento social.

Como todo cientista, parte de uma pergunta, de uma dúvida: “Quanto há de testemunhal numa fotografia? Quem nos garante que a fotografia formalmente similar e precisa, e aparentemente objetiva (o que foi fotografado era o que estava lá, nem mais nem menos), é o documento verdadeiro do que as pessoas vêem, e sobretudo sentem, pensam, fazem e são?”

Assim, ao começar o livro trazendo a discussão da fotografia e vida cotidiana, ele apresenta um filme emblemático para muitos fotógrafos. Blow Up, de Antonioni, realizado em 1966 e que no Brasil estranhamente recebeu o nome de Depois daquele beijo.É nessa obra de ficção que a polissemia fotográfica aparece com força e, como bem lembra Martins, não é porque uma obra é ficcional que ela é menos real. Portanto, uma interpretação de um real que não de deixa simplesmente congelar ou aprisionar, mas que a cada olhada nos permite novas significações, novas possibilidades para entender representações da sociedade num certo ou determinado período sócio-histórico.

Pra além do cotidiano, existe a questão dor ritos da sociedade, formas que a ajudam a se estruturar e o autor nos apresenta um belo ensaio sobre as fotografias dos atos de fé no Brasil, realizado por cinco fotógrafos com olhares diferentes sobre essas questões. Ao tentar analisar essas imagens, Martins nos traz para questão da imaginação fotográfica, dos vários modos de ver, que pertencem à imaginação do fotógrafo, mas também à imaginação de que decifra imagens. Discussão que leva também ao terceiro texto, onde analisa o trabalho do fotógrafo Sebastião Salgado, mas especificamente seu ensaio Êxodos.  E, aqui, surge o tão falado embate entre documentação e estética, como se uma fosse excludente da outra, idéia com que Martins não concorda. Claro que existe sempre uma busca, ou melhor, uma narrativa estética ao se criar um discurso, seja ele qual for. Assim como no primoroso ensaio O Impressionismo na Fotografia e a Sociologia da Imagem, em que podemos ver com mais vigor sua idéia da necessidade de prender a ver.

E, para não ficar somente na teoria, Martins nos apresenta num dos capítulos do livro seu ensaio fotográfico sobre o Carandiru durante o processo de desativação do prédio. Um estudioso que tem as duas visões da análise imagética: a teoria e o fazer. “Decifrar o que se esconde por trás do visível ou do fotografável continua sendo um desafio para os cientistas que se documentam com expressões visuais da realidade social.

Na tessitura do seu pensamento – formado, aliás, com muitos estudos sobre história da fotografia e fotógrafos -, Martins nos chama a atenção para a necessidade de uma sociologia do conhecimento visual para aprender a ler e interpretar imagens, em especial a fotográfica: “Sociólogos e antropólogos precisam muito mais do que uma foto para entender o que uma foto contém”. E assim é, pois desde muito alguém já nos disse que a fotografia é um tipo especial de conhecimento.

 

 

*Nascida em Roma, Simonetta Persichetti, além de colaborar como jornalista no Caderno 2 de O Estado de São Paulo, onde vem realizando esta série de entrevistas desde 1996, tem formação paralela em fotografia. É mestre em Comunicação e Artes e doutoranda em Psicologia Social. Estuda e trabalha com fotografia há 20 anos. Recebeu o Prêmio Jabuti de Reportagem em 1999 por Imagens da Fotografia Brasileira, lançado por esta editora.

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