Cláudio Magris um dos meus autores preferidos está lançado novo livro, em entrevista concedida ao Estadão ele falou também da cituação atual da Europa. Clica aqui
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Anselmo, faça cinema, por favor!
Planos cortados e beijos em PB
Tente filmar o que você sente!
Não enquadre a cena, focalize o fundo, quebre a narrativa
e distorça o mundo
No negativo pinte traços de cores em tons pastéis
Peça ajuda ao Gláuber e convide a Lygia
para almoçar numa terça-feira e lhe contar os seus lamúrios
de burguesa
Jean-Luc Godard desfez o mar e Buñuel também foi Deus

O que faz de um filme uma obra prima? O que torna um diretor de cinema um gênio? Essas são perguntas que quase sempre se fazemos quando assistimos as bobagens que assolam os cinemas ou mesmo em casa diante de um filme na tv ou o dvd que você comprou ou locou. Mas é o tipo de questão que não consideramos quando vemos por exemplo Citizen kane de Orson Wells, L’aventura de Antonioni, O ano passado em Marienbad de Alain Renais e o Atalante de Jean Vigo, cartaz deste sábado no Projeto Um Outro Olhar. Quem ama o cinema saberá no momento em que as imagens dislumbrantes desse clássico frances começam a iluminar nossos olhos que se trata de uma obra vigorosa e que seu diretor mesmo que você não saiba ao certo quem ele é ou a sua trajetória tinha um talento descomunal para evocar através de imagens e dos movimentos de suas personagens os sentimentos de um grande amor. O “Atalante” é um desses filmes incontornáveis da história do cinema, um dos maiores e dos mais influentes. No seu enrendo é menos uma história que ele conta e mais a evolução dos sentimentos de Jean e Juliete que se casam e vão morar numa barcassa de nome atalante. Na convivência com o marido, um velho marinheiro de hábitos rudes Jule e uma penca de gatos, Juliete vai descobrir as dificuldades da relação mas também a medida do encanto que o amor pode trazer. Juliete é a lendária Dita Parlo atriz alemã que faria depois A Grande Ilusão de Renoir, Jule é Michel Simon um dos símbolos do cinema frances que não tinha mais de quarenta anos na época, mas parecia já na casa dos sessenta. Jean é Jaen Dasté que vimos recentemente em outro Renoir A Besta Humana. O ano é 1934 e Jean Vigo muito doente chegou a dirigir o filme numa maca morreria poucos messes depois do lançamento de O Atalante numa cópia mutilada pelos produtores. Vigo é uma lenda do cinema, em 1933 ficara famoso com o polêmico “Zero em comportamento” que mostrava a revolta de estudantes num internato e que foi proibido na frança. Só em 1990 o Atalante original de Vigo foi restaurado e lançado, um filme mítico e referência para François Truffaut que o amava e toda a Nouvelle Vague. A direção de fotografia que é uma verdadeira aula sobre o preto e branco é do grande Boris Kaufman o russo que depois iria para os estados unidos fotografar para Otto Premingen e fazer Sindicato de ladrões de Elia Kazan pelo qual ganharia um oscar. Contudo é sempre necessário sempre dizer que meras palavra s não dão conta do sublime que há em O Atalante, o melhor é ver o filme e se deliciara com a ousadia e a genialidade de Jean Vigo que deixou apenas quatro filmes para a posteridade, dois cutas, um média e um longa metragem. E é literalmente isso que vemos em O Atalante, a posteridade, um filme absolutamente moderno para aquele ano de 1934. O Atalante será exibido neste sábado no Auditório Hélio Moreira às oito da noite, a entrada é franca e a classificação é 14 anos.
Paulo Campagnolo

Começa hj (06) e vai até o próximo dia 14 uma Mostra de Cinema Contemporâneo Francês organizado pelo SESC-PR em comemoração ao ano da França no Brasil. Confira aí a programação:
- dia 06 sexta às sete da noite no auditório do LAAP-Bloco H-35 sala 02 UEM-Câmpus-Sede. ‘Povoado Number One’ de Rabah Ameur-Zaimèche. Com Jeanne Balibar, Rabah-Ameur Zaimèche.
- dia 07 Sábado às seis da tarde no auditório do Senac ‘A Esquiva’ De Abdelattif Kechiche. Com Osman Elkharraz, Sabrina Ouazani, Sara Forestier. Filme ganhador de 5 César, incluindo o de Melhor Filme e Melhor Diretor.
- dia 09 Segunda às sete da noite no auditório Ney Marques -UEM ‘O último dos loucos’ De Laurent Achard. Com Dominique Reymond, Mathias Mlekuz.
- dia 10 Terça às sete da noite no auditório Ney Marques -UEM ‘Assassinas’ de Patrick Grandperret.
dia 12 Quinta às cinco da tarde no auditório Ney Marques -UEM ‘Até já’ de Benoit Jacquot.
dia 13 Sexta às cinco e meia da tarde no auditório Ney Marques -UEM ‘Tudo Perdoado’de Mia Hansen-Love.
e dia 14 Sábado às três da tarde no auditório Senac ‘A França’ de Serge Bozon e às cinco ‘De volta a Normandia’ de Nicolas Philibert.

Se, como se diz o adágio, todos os escritores russos “vieram do ‘Capote’ de Gogol, vale lembrar que este capote foi arrancado dos ombros daquele pobre funcionário justamente em São Petersburgo, no início do século XIX. O tom, porém, foi dado pelo “Cavaleiro de Bronze” de Puchkin, cujo herói, um funcionário público subalterno, depois de perder sua amda numa enchente, acusa de negligência a estátua equestre do imperador (não tinha construído diques) e enlouquece quando vê o czar Pedro, irado, saltando do pedestal montado em seu cavalo e correndo em sua direção para atropelá-lo, a ele, que o ofendia. (Esta podia ser, é claro, uma história simples sobre a rebelião de um homem pequeno contra o poder arbitrário, ou sobre a mania de perseguição, sobre a oposição entre o subconsciente e o superego, e assim por diante, não fosse pela magneficiência dos próprios versos – os melhores jamais escritos em homengem a esta cidade, com a exceção dos de Ossip Mandelstam, que foi literalmente esmagado no solo do Império um século depois de Puchkin ter sido morto num duelo.) De qualquer maneira, no começo do século XIX, São Petersburgo já era a capital das letras russas, um fato que tinha muito pouco a ver com a presença efetiva da corte na cidade. Afinal, Moscou havia sido a sede da corte durante séculos, e nem por isso qualquer coisa havia sido produzida lá. A razão para essa súbita irrupção do poder criativo foi, outra vez, acima de tudo geográfica. No contexto da vida russa daqueles dias, o surgimento de São Petersburgo foi semelhante à descoberta do Novo Mundo: deu aos homens reflexivos do período uma oportunidade para examinarem-se a si mesmos e à nação como se olhassem de fora para dentro. Em outras palavras, esta cidade deu-lhes a possibildade de objetificar o país. A noção de que a crítica é mais válida quando vinda de fora ainda é muito popular hoje em dia. Então, realçado pelo caráter utópico e alternativo – ao menos visualmente – da cidade, ela instilou naqueles que foram os primeiros a tomar da pena um sentido da autoridade quase inquestionável de seus pronunciamentos. Se é verdade que todo escritor precisa desligar-se de sua experiência para ser capaz de comentá-la, a cidade, prestando-lhe este serviço de afastamento, poupava-lhes o imcômodo de uma viagem.
Joseph Brodsky, “Menos Que Um”, tradução: Sergio Flaksman.

Sim, é claro que exite um mecanismo mas como explicá-lo, quem pede a explicação, questões que são colocadas por aquele de que lhe falei cada vez que pessoas como Gómez ou Lucien Verneuil o olham levantando a sobrancelha, e uma ou outra noite eu mesmo pude dizer-lhe, que a impaciência é a mãe de todos os que se levantam e saem batendo a porta ou uma página, então aquele de quem lhe falei bebe devagarinho seu vinho, fica nos olhando um tempo e depois condescendente em dizer ou somente pensar que o mecanismo é de alguma maneira essa lâmpada que se acende no jardim antes que as pessoas venham jantar, aproveitando a fresca da noite e o perfume dos jardins, esse perfume que aquele de quem lhe falei conheceu em um povoado de Buenos Aires há muitíssimo tempo, quando a avó tirava a toalha branca e punha a mesa debaixo da parreira, perto dos jasmins, e alguém acendia a lâmpada e era um rumor de talheres e pratos em bandejas, um papo na cozinha, a tia que ia até a azinhaga da porta branca para chamar as crianças que brincavam com os amigos no jardim da frente ou na calçada, e fazia o calor das noites de janeiro, a avó tinha regado o jardim e a horta antes que escurecesse e sentia-se o cheiro da terra molhada, das alfenas ávidas, da madressilva cheia de gotas translúcidas que multiplicavam a lâmpada para algum menino com olhos nascidos para ver essas coisas. Tudo isso tem pouco a ver hoje, depois de tantos anos de vida boa ou má, mas é bom ter-se deixado levar por uma associação que enlaça a descrição do mecanismo com a lâmpada dos verões do jardim da infância, pois assim acontecerá que aquele de quem lhe falei terá um prazer particular em falar da lâmpada e do mecanismo sem sentir-se demasiado teórico, simplesmente recordando um passado cada dia mais presente por razões de esclerose, de tempo reversível, e ao mesmo tempo poderá mostrar como isto que agora começa a acontecer para alguém que provavelmente se impacienta, é um lâmpada em um jardim de verão que se acende entre as plantas, sobre uma mesa. Passarão vinte segundos, quarenta, talvez um minuto, aquele de quem lhe falei se lembra dos mosquitos, dos louva-a-deus, das falenas, dos cascudos; a similitude a deduz qualquer um, primeiro a lâmpada luz nua e só, e nesse momento começam a chegar os elementos, as peças soltas, os girões, os sapatos verdes de Ludmilla, um pingüim turquesa, os cascudos, os louva-a-deus, o cabelo crespo de Marcos, o biquíni tão branco de Francine, um tal de Oscar que trouxe dois tatus-reis sem contar o pingüim, Patrício e Susana, as formigas, o aglutinamento e a dança e elipses e cruzes e choques e bruscas investidas sobre o prato de manteiga ou a travessa de farinha, com gritos da mãe que pergunta por que não as cobriram com um guardanapo, parece mentira que não saibam, que essas noites estão cheias de bichos, e Andrés chamou algumas vezes Francine de bicho, mas talvez o mecanismo já esteja sendo entendido e não há razaão para deixar-se levar pelo torvelinho ontomológico antes do tempo; só que é doce, docemente triste, não ir embora dali sem olhar um segundo para trás, para a mesa e lâmpada, olhar o cabelo grisalho da avó que serve de ceia, no quintal late a cadela porque nasceu a lua e tudo treme entre os jasmins e as alfenas enquanto aquele de quem lhe falei vira as costas e o dedo indicador da mão direita apóia-se na tecla que imprimirá um ponto vacilante, quase tímido, ao término do que começa, do que tinha que ser dito.
Julio Cortázar, ‘O livro de Manuel’, tradução: Olga Savary
quando bebê começava a chorar colocavam um rádio de pilhas na cabeceira do berço parava. o que rolava é o que menos importa
na infância a única música que ouvia era a fanfarra do colégio público onde estudava. percorria as ruas paralelas à ferrovia a acompanhar
hj se me perguntarem o que gosto de ouvir digo que não sei. acho que aquela música que tocou quando estava distraído olhando para ti

Esquecer a eternidade e substituir o conhecimento do antecedentemente real pela esperança por uma contingência futura não é fácil. Mas ambas tarefas tornaram-se bem mais fáceis depois de Hegel; ele foi o primeiro filósofo a levar o tempo e a finitude tão a sério quanto qualquer hobbesiano materialista, ao mesmo tempo em que levou o impulso religioso tão a sério quanto qualquer profeta hebreu ou santo critão. Espinosa havia tentado uma tal síntese por meio da identificação de Deus com a Natureza, mas Espinosa ainda pensava ser desejável ver as coisas sob o aspecto da eternidade. Hegel replicou que qualquer visão da história humana sob este aspecto seria vaga e abstrata demais para ter um uso religioso, e sugeriu que o significado da vida humana é uma função de como a história humana se produz, ao invés de ser uma função da relação desta história com algo a-histórico. Esta sugestão tornou mais fácil para dois leitores de Hegel, Dewey e Whitman, afirmarem que o modo de pensar sobre o significado da aventura humana não é olhado para cima, mas para adiante: é contrastar o passado o e presente humanos como um futuro humano possível.
Richard Rorty, ‘Para Realizar a América’, tradução: Paulo Ghiraldelli Jr.,Alberto Tosi Rodrigues e Leoni Hennig.
O Projeto Um Outro Olhar organizado por Paulo Campagnolo exibe neste sábado às oito da noite no Auditório Hélio Moreira “O Tempo Que Resta” filme de François Ozon de 2005 que conta a história de um fotógrafo de moda (Melvil Poupaud) que descobre que está com câncer terminal e apartir de então muda completamente seu modo de vida.